“O nome, efectivamente, importa”. Foi desta forma que Carlos Rodrigues, reitor da Universidade Politécnica de Viana do Castelo (UNIPVC), sublinhou a importância da mudança de designação da instituição, concretizada em Agosto, durante a apresentação dos resultados da actividade científica e tecnológica realizada esta segunda-feira, 12. Mas, nas declarações que fez, o responsável foi mais longe do que a simples valorização do novo estatuto: apontou a persistente diferença de reconhecimento social entre o ensino universitário e o politécnico e defendeu que o País demorou demasiado tempo a reconhecer a realidade das instituições.
“Portugal não fez esse caminho, não tomou essa opção. Em boa verdade, passados 20 anos, o Governo decidiu passar os institutos politécnicos para universidades porque era uma inevitabilidade. Porque nós já reuníamos todas as condições para sermos universidade. Não foi uma opção política, foi o reconhecimento de uma realidade”, afirmou.
Para Carlos Rodrigues, a alteração não se esgota, por isso, numa questão de nomenclatura. A mudança tem implicações na visibilidade internacional da instituição e na forma como os diplomas dos seus estudantes são percepcionados. O reitor não deixou, contudo, de reconhecer um obstáculo que ainda vai permanecendo: “O que é facto é que a sociedade continua a valorizar mais o ensino universitário do que o ensino politécnico”.
Como quer que seja, a UNIPVC procura consolidar a sua posição num contexto de rápidas mudanças, em que, como observou Carlos Rodrigues, o “mundo vive um período acelerado de alterações e a academia, também”. A afirmação não passa apenas pela formação, mas também pela investigação, inovação, transferência de conhecimento para a economia e pela internacionalização, tudo áreas em que, reconheceu, o trabalho da academia nem sempre é suficientemente conhecido.
Os resultados apresentados dão a dimensão do caminho percorrido. Em 2025, os investigadores da UNIPVC publicaram 561 artigos científicos, 197 dos quais em revistas com “elevado nível de impacto”. A instituição foi a segunda universidade politécnica portuguesa com maior produção científica naquele ano e figura entre as 2000 primeiras instituições de ensino superior do mundo no World University Rankings, da Times Higher Education. É também a primeira classificada entre as 18 universidades politécnicas portuguesas, de acordo com os dados apresentados.
Da investigação à economia: três centros tecnológicos com financiamento aprovado
O desafio que a Universidade coloca agora a si própria é fazer com que a produção científica tenha reflexos cada vez mais directos na economia e na capacidade de inovação das empresas. É com esse objectivo que a instituição inscreve no Alto Minho a construção de três Centros de Tecnologia e Inovação, para os quais foi aprovado um financiamento global de 13.522.252€.
Carlos Rodrigues fez questão de destacar a dimensão do trabalho necessário para chegar a esta fase. “Isto foi um percurso longo, de vários anos”, afirmou, apresentando o financiamento aprovado para a construção dos três edifícios como uma “feliz notícia”. A concretização destas infra-estruturas, que envolvem 63 entidades associadas, quase metade das quais empresas, permitirá reforçar a ligação entre o conhecimento produzido na UNIPVC e as necessidades concretas do tecido empresarial.
Os centros terão áreas de intervenção distintas. O CiTiN, a implantar nos Arcos de Valdevez, estará orientado para a indústria, a manufactura avançada e a transição digital; o Sustemare, em Viana do Castelo, para as energias e tecnologias oceânicas; e o 3AR, em Ponte de Lima, para a valorização e transferência de tecnologia no sector agroalimentar.
A ambição não se limita à construção dos edifícios. A instituição que em 2026 completou 40 anos pretende criar estruturas próprias, com pessoas dedicadas ao desenvolvimento tecnológico e à ligação às empresas, capazes de transformar conhecimento em soluções aplicáveis. O objectivo é que os centros contribuam para a competitividade da economia regional e para a criação de cerca de 110 postos de trabalho até 2032.
O portefólio tecnológico da UNIPVC integra já 31 tecnologias em diferentes fases de desenvolvimento. O desafio passa agora por lhes dar condições para avançarem, serem testadas e chegarem ao mercado. Num território fortemente marcado pela presença de pequenas e médias empresas, esta aproximação poderá permitir o acesso a competências de investigação e inovação que nem sempre estas conseguem desenvolver de forma autónoma.
A dimensão financeira da actividade em curso ajuda a perceber a escala desta estratégia. A UNIPVC tem 111 projectos nacionais e internacionais em execução, associados a um investimento global de 52.293.798€. Entre os financiamentos identificados estão 11.740.285 correspondentes a 19 projectos aprovados no âmbito do Norte 2030 e 25.686.418€ associados a 42 projectos do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR). Nos últimos cinco anos, a instituição arrecadou 46.181.409€ através de projectos co-financiados.
Mais investigadores e doutoramentos para consolidar o crescimento
A capacidade de investigação assenta também na consolidação das estruturas científicas e na qualificação dos recursos humanos. A UNIPVC dispõe de dez unidades de investigação, cinco das quais classificadas com “muito bom” pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT), nas quais estão integrados 135 investigadores com vínculo à instituição. O financiamento atribuído pela FCT para apoiar estas unidades, no período de 2025 a 2029, ronda 1,75 milhões de euros.
A Universidade vianense pretende aumentar em 75% o número de membros integrados nas suas unidades de investigação e alargar a oferta de formação avançada. Os dois primeiros doutoramentos próprios, nas áreas do Design para a Inovação Regional e das Ciências do Desporto, já estão em funcionamento e receberam 96 candidaturas para as 35 vagas.
A procura registada reforça, segundo os responsáveis, a “pertinência” desta aposta. Os programas deverão desenvolver-se preferencialmente em ambientes não académicos, aproximando os trabalhos de investigação das necessidades das empresas e da sociedade. A meta definida é chegar a quatro doutoramentos aprovados até ao final de 2026, estando também em preparação propostas nas áreas da Enfermagem e da Educação.
Na investigação, a instituição conta ainda com três cientistas entre os 2% de investigadores mais citados do mundo: Sérgio Lopes, Gaspar Rego e Leonel Nunes. Para Luís Paulo Rodrigues, pró-reitor para as áreas da Investigação, Desenvolvimento, Inovação e Tecnologia, os resultados alcançados traduzem um percurso de consolidação que deve agora prosseguir, com maior capacidade de transferência de conhecimento e reforço das parcerias empresariais.
A ambição foi, de resto, resumida pelo próprio numa frase que marca o horizonte traçado para a instituição: “Passo após passo transformamo-nos na melhor universidade do mundo”. Uma meta que, para além da afirmação académica, terá de ser medida pela capacidade da UNIPVC converter a investigação em inovação, qualificação e desenvolvimento para o território.