O Portulano Digital, uma plataforma inovadora desenvolvida pelo SETE JORNAL, afirmou-se como um dos grandes exemplos europeus na vanguarda da defesa da integridade da informação e do combate à opacidade cívica. O projeto foi desenhado especificamente para disponibilizar um acesso simples às propostas e deliberações municipais, focando-se inicialmente na monitorização da Câmara Municipal de Barcelos. Através de ferramentas de filtragem avançada que permitem escrutinar as decisões políticas e as reuniões autárquicas desde 2017, a plataforma funciona como um serviço público que traduz a complexidade burocrática numa linguagem clara e acessível a qualquer cidadão.
Lançado simbolicamente a 3 de Maio de 2026, Dia Mundial da Liberdade de Imprensa, o apoio à criação do Portulano Digital resultou de uma rigorosa selecção internacional gerida pelo Journalismfund Europe, organização sem fins lucrativos sediada em Bruxelas, na Bélgica, que financia o jornalismo de investigação independente na Europa. De entre 153 candidaturas submetidas de toda a Europa, a proposta do SETE JORNAL foi um dos 27 projectos aprovados, tendo obtido uma pontuação de 77,75 pontos em 100 possíveis e uma bolsa de 34.330€.
Na sua avaliação, o júri internacional enalteceu o “potencial promissor” e o “forte compromisso com a produção de conteúdo local crítico e rigoroso” do SETE JORNAL. Os especialistas do painel de selecção sublinharam ainda que a relevância deste trabalho “vai além das fronteiras locais”, servindo de modelo global de responsabilidade democrática para regiões em múltiplos continentes que partilham desafios idênticos de transparência.
Desenvolvido ao longo de nove meses pela Willbe Collective, o repositório, acessível livremente em www.portulanodigital.pt, quebra as barreiras da informação autárquica convencional – habitualmente resumida a notas circunstanciais e inúteis. Actualmente, a plataforma disponibiliza mais de 2500 ficheiros de documentos, o equivalente a cerca de 200.000 páginas de informação que cobrem as deliberações e anexos da última década do executivo barcelense, englobando mais de 200 reuniões e 9000 deliberações.
O grande trunfo tecnológico do Portulano Digital reside na integração de inteligência artificial, que actua de forma automatizada na leitura, interpretação e indexação dinâmica dos ficheiros PDF e seus anexos. Esta engenharia converte-se na resposta directa ao desafio tecnológico lançado à escala europeia: ao cruzar inovação e processamento de dados, o repositório permite buscas parametrizadas e localização instantânea de dados complexos para armar cidadãos e jornalistas num escrutínio pleno da gestão pública.
Europa exige fim da retórica e apoios plurianuais às redacções
Esta excelência prática e tecnológica garantiu ao SETE JORNAL a integração num grupo restrito de 46 beneficiários em 16 países europeus apoiados pelo programa Pluralistic Media for Democracy (PM4D). Ao consagrar a plataforma como uma iniciativa de vanguarda, o relatório final do programa, que a IMS acaba de publicar, demonstra como ferramentas que aliam tecnologia e jornalismo local operam enquanto “infra-estruturas democráticas e sociais” estruturais e insubstituíveis.
O documento valida o impacto estratégico de mecanismos de escrutínio automatizado como o Portulano Digital, apontando o enorme retorno financeiro que trazem: por cada dólar investido em jornalismo independente e de investigação, podem poupar-se mais de 100 dólares aos cofres públicos através da recuperação de fundos, da melhoria dos serviços públicos e da redução da corrupção.
O relatório da IMS realça ainda que a urgência deste tipo de fiscalização aumentou drasticamente na Europa, num ecossistema poluído pela desinformação e que custa às sociedades mundiais entre 350 e 500 mil milhões de dólares anuais. É precisamente nesta falha de mercado que o Portulano Digital assume o seu papel de modelo de referência europeu destacado no documento: quando os meios regionais enfraquecem e abdicam de vigiar os poderes locais, surgem os chamados “desertos de notícias”, deixando os cidadãos isolados e as comunidades – incluindo migrantes e grupos marginalizados – vulneráveis à polarização e à manipulação.
Perante estas conclusões, o relatório europeu fixa recomendações severas sobre as obrigações que as instituições e decisores políticos devem assumir para garantir a sustentabilidade de quem fiscaliza o poder. Assim, a IMS exige que o Estado passe da “retórica” à prática, criando sistemas de apoio concretos e financiamento de base plurianual que protejam a independência das pequenas redacções.
O documento termina com uma advertência directa às entidades públicas no que respeita à equidade económica, defendendo uma fiscalização rigorosa sobre a transparência na distribuição da publicidade estatal. O jornalismo local deve receber “uma parte justa do valor que ajuda a gerar”. Paralelamente, o Portulano Digital deixa as portas abertas ao futuro, estando preparado para acolher a adesão voluntária de outros municípios portugueses que queiram privilegiar a abertura geral de dados, fortalecendo a confiança dos cidadãos nas instituições através do livre acesso à informação.