O Expresso dedicou uma “edição especial” a Pinto Balsemão, passando em revista a vida política e empresarial do dono e fundador da Impresa. São 34 páginas. Nos textos da autoria de jornalistas, nem uma palavra sobre Emídeo Rangel. Apenas Miguel Sousa Tavares, que não é jornalista do Expresso, presta homenagem ao grande obreiro da SIC.
Todos os anos, por ocasião do aniversário da SIC, a 6 de Outubro, são feitas peças sobre a estação, para inclusão nos noticiários. Desde que saiu dali, e durante muitos anos, nunca mais se viu uma imagem de Emídeo Rangel nessas peças. E quando passou a aparecer era de forma envergonhada – dois ou três segundos.
A SIC fez um “reset” sobre o homem que durante nove anos foi director-geral da estação. E os jornalistas que editaram essas peças prestaram-se à tarefa. Não tenho qualquer dúvida de que foi Pinto Balsemão quem deu a ordem. A direcção de Informação acatou-a e transmitiu-a para baixo.
A “edição especial” do Expresso é, de certa forma, o espelho do jornalismo defendido por Pinto Balsemão. Destacam-se os que se prestaram a ir comer-lhe à mão. Imagino, sem dificuldades, Balsemão a espalhar benesses, a dar-lhes umas migalhas, como se distribuísse “Purina” a uns patudos. Gostaram e ambicionaram mais – comer à mesa com ele. Isso sim, foi o pináculo de umas vidas tristes.
Alguns declaram-se agora sem chão. Merecem grande comiseração. Descobriram, tardiamente, que sempre foram o que desejaram ser – a voz do dono. Erraram na profissão. Balsemão topou-os à distância. Assobiou-lhes, pagou-lhes bem, deu-lhes uma vida mais ou menos regalada.
Esses émulos de Balsemão têm agora outra preocupação – vem aí um novo dono. Poderá, naturalmente, querer outras “vozes”… Sim, porque alguém, além da administração, há-de ser responsável pelo descalabro da Impresa.
Emídeo Rangel vedou a redacção da SIC a Pinto Balsemão. Desde o primeiro dia. Avisou, logo de início, que não toleraria fretes ao patrão. Defendeu a redacção, com afinco, das suas investidas. Balsemão não gostou. Aquilo doeu. Muito. Foram nove anos à míngua, sem conseguir meter o bedelho na Informação.
Rancoroso como era, coisa que, aliás, nunca escondeu, Balsemão não descansou enquanto não se livrou de Emídeo Rangel. Hoje, chego a admitir que Balsemão abdicou do “Big Brother” com o único objectivo de ter pretexto para descartar o director-geral da SIC. Mediu mal as consequências.
Emídeo Rangel deu liberdade, toda a liberdade, aos jornalistas da SIC. Foram anos de jornalismo a sério. E, tanto ou mais importante, protegeu-os do patrão.
Foi uma honra tê-lo como director.