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Um voto na integridade

PAULO VILA

9 de Outubro 2025
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EDITORIAL


Nenhuma outra eleição tem as mesmas repercussões sobre o quotidiano das pessoas como as autárquicas. Um impacto que se acentuou com a descentralização de competências, em diversas áreas, para os municípios e que, por sua vez, têm estado a ser transferidas para as juntas de freguesia pela via de contratos inter-administrativos.

O exercício de funções autárquicas nunca foi, por conseguinte, tão exigente do ponto de vista técnico, administrativo e político como aquele que vivemos actualmente. Em vários domínios, as juntas de freguesia garantem já serviços que, não tem muito tempo, só os municípios tinham capacidade para os prestar. E, noutros casos, até, as necessidades de acesso a esses mesmos serviços sujeitavam os cidadãos a terem que se deslocar a repartições públicas muitos quilómetros para além das sedes dos respectivos concelhos.

Pelas razões já mencionadas, as câmaras municipais têm vindo a assumir uma importância cada vez mais central no dia a dia das comunidades. A educação, cultura, vias de comunicação, protecção civil, policiamento de proximidade, justiça, entre outras, são já áreas nas quais o poder local tem uma intervenção concreta e decisiva.

Numa outra dimensão, veja-se, por exemplo, o investimento captado pelos municípios do âmbito do Plano de Recuperação e Resiliência. Ainda que o desempenho pudesse ser melhor, é inequívoco que, sem essa intervenção, a execução deste programa seria mais difícil e, sobretudo, mais desigual.

Com efeito, este aporte de competências nas autarquias locais exige dos eleitos mais responsabilidade e responsabilização. Mais competência e eficiência. Reclama liderança e um maior sentido de compromisso. Mas, acima de tudo, requer honra, ética e moral por parte daqueles que se candidatam a cargos públicos.

A escolha dos representantes autárquicos é, por conseguinte, um acto que deve ir muito para além da afinidade e militância políticas. Dos discursos mais ou menos eloquentes ou da verborreia de quem se diz ser melhor do que os outros. Da enumeração da obra feita que, tendo sido conseguida à custa dos nossos impostos, por vezes, mais parece ter sido paga pelos candidatos que a anunciam. Das promessas, dos brindes e das campanhas sumptuosas…

Vale a pena, a este propósito, perguntarmo-nos de onde nasce tanto dinheiro? Como são pagas as torrentes de conteúdos digitais que alimentam as páginas de campanha e as redes sociais? E os incontáveis e espaçosos cartazes que eclodem ao virar de cada esquina? Quem financia tudo isto e com que intenção o faz? Quem paga o despesismo que nos atafulha repetidamente a caixa do correio sob a forma de “info mails” com descarados apelos ao voto e à confiança?

Trampolim, em muitos casos, para outras conquistas, o poder local é também hoje (e mais do que nunca!) uma esteira para aqueles que procuram fazer da política um modo de vida. Mudam de concelho, de partido, de convicções e de ideais. Fazem tudo e de tudo se servem para manter uma condição e estatuto que de outro modo não alcançariam. Desprezam a dignidade e vivem bem sem qualquer réstia de vergonha.

Quando confiado a estes, o poder local é campo fértil para a corrupção e o compadrio – incluindo para alguns daqueles que surgem na primeira linha a dizer que lhe vão pôr fim. Não faltam exemplos à nossa volta. Conhecemo-los bem, assistimos à sua disseminação e vemos como eles comprometem irremediavelmente os modelos de desenvolvimento comunitário.

Há, contudo, uma responsabilidade que não lhes podemos assacar: a da escolha. E essa está em cada um de nós. Livre, porquanto secreto e anónimo, o voto consciente é o garrote capaz de conter essa hemorragia que ameaça os valores democráticos e, consequentemente, o futuro colectivo. Sobrepondo-se a qualquer outra inspiração, o voto na integridade será, por isso, a melhor escolha nas autárquicas do próximo domingo.