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A “censura estúpida” pelos estúpidos censores de sempre

PAULO VILA

26 de Maio 2026

EDITORIAL


Dentro de um mês, a 24 de Junho, completa-se um século sobre o dia em que Portugal ficou sujeito à censura, uma das consequências do golpe militar de 1926 e que acabou a ser abraçada pelo Estado Novo. Durante 48 longos anos, foi utilizada como instrumento impetuoso de controlo da opinião pública e de defesa dos conceitos políticos, sociais e morais do regime de então. Da fiscalização prévia dos espectáculos e de parte substancial do papel impresso, estendeu-se posteriormente à rádio e, depois, à televisão.

Extinguiu-se com o 25 de Abril de 1974. Mas, pese embora o censor estatal de manga de alpaca e lápis azul tenha desaparecido, conservam-se reminiscências daquela “censura estúpida” contra a qual, um dia, o conselho de redacção do Avante! prometeu lutar sem tréguas a partir da “sombra da clandestinidade”.

Os defensores da liberdade de expressão deixaram, entretanto, de ter necessidade de permanecer na sombra, mas foi para lá que se transferiram os estúpidos censores de sempre.

Estão um pouco por todo o lado. E em Barcelos, também! Na oposição, exibiam-se como inefáveis paladinos da imprensa livre, plural e independente, enquanto pilar de uma sociedade democrática. No poder, combatem-na, porque a verdade já deixou de lhes ser conveniente e, mais do que isso, ela mostra que, afinal, conseguem ser piores do que aqueles que criticavam com sofreguidão.

Agem sub-repticiamente e servem-se do poder democrático – efémero, parecem esquecer-se – para impor vontades pessoais que conspurcam as instituições, a política e todos quantos nela participam de forma a contribuir para uma sociedade mais próspera e igualitária. Alimentam-se da perversão porque não conhecem outra dieta. O apetite voraz pela imoralidade torna-os anafados.

Ora, um desses estúpidos que o tempo encarregar-se-á de retirar da sombra sujeitou uma técnica superior e chefe de serviço da Câmara de Barcelos ao absurdo de exigir que o SETE JORNAL voltasse a pedir autorização para utilizar um auditório cujo uso estava autorizado havia quase dois meses. O espaço destinava-se a acolher a apresentação do livro de Miguel Carvalho – Por dentro do Chega –, seguida de um debate sobre a importância do jornalismo de investigação na luta contra a disseminação de informações falsas.

A iniciativa realizou-se porque o Instituto Politécnico do Cávado e do Ave (IPCA) nos abriu as portas. O caso foi notícia nacional, em prejuízo da imagem do Município e dos ‘mínimos’ de decência ética que se exigem a quem é eleito para ocupar cargos públicos. E, assim, quando se pensava que as tenebrosas memórias de executivos anteriores não seriam reavivadas tão cedo, eis que um estúpido se encarregou de nos mostrar que há hoje na Câmara de Barcelos quem se comporte ao mesmo nível dos tiranetes.

E que não restem dúvidas: dirigido ao livro de Miguel Carvalho e/ou ao SETE JORNAL, o cancelamento tácito da iniciativa constituiu um acto de censura declarada levado a cabo pela Câmara de Barcelos contra o jornalismo independente e contra a liberdade de expressão. Aliás, o silêncio imperturbável do Município perante as notícias e os comentários que foram surgindo não mereceram, até aos dias de hoje, qualquer reacção vinda dos Paços do Concelho.

Como escreveu Miguel Carvalho a propósito desta tentativa de silenciamento, estes são os “aromas” da “época sombria” que vivemos e que, “pelos vistos, tem imitadores por todo o lado”. Há quatro anos, por cá, o efeito destas ‘fragrâncias salazaristas’ conduziu ao encerramento intempestivo do Jornal de Barcelos. Felizmente, por muito que agora tentem fazer o mesmo com o SETE JORNAL, faltar-lhes-á sempre o poder de calar quem escreve sem medo.

Acresce que, como é sabido, a História nunca absolve os censores.