Não porque Mário Constantino tenha desmentido qualquer dos factos que relatámos na nota publicada em Maio. Não o fez, nem poderia fazê-lo, porque todos eles assentam em informação produzida pelo próprio Município. Fê-lo, isso sim, procurando construir uma narrativa que sabe não corresponder à verdade, sem se abster de atribuir ao SETE JORNAL motivações que nunca existiram e procurando desresponsabilizar quem, no seio do executivo municipal, decidiu alterar um procedimento que estava concluído havia quase dois meses.
Disse o presidente da Câmara que “os serviços” solicitaram ao SETE JORNAL que o pedido de utilização da Biblioteca Municipal fosse apresentado “dentro dos termos que o regulamento indica” e acrescentou que, em vez de procurarmos resolver o problema, preferimos “criar um facto político”, obtendo com isso o “impacto nacional” que o caso veio a alcançar.
É precisamente aqui que as declarações do presidente assumem maior gravidade. Ao afirmar que a iniciativa partiu dos serviços municipais, Mário Constantino não apresentou uma versão diferente dos acontecimentos. Pelo contrário, tentou reescrevê-los acabando, dessa forma, a abraçar uma mentira deliberada.
O presidente sabe que os serviços municipais não decidiram, por sua iniciativa, reabrir um processo encerrado, relativo a um pedido apresentado em Fevereiro e formalmente autorizado em 3 de Março. Sabe igualmente que essa exigência só surgiu depois da intervenção de um vereador do seu executivo, que determinou aos serviços que o SETE JORNAL voltasse a requerer aquilo que já havia requerido e que o Município autorizara. E sabe, também, que esse vereador é o seu vice-presidente, José Paulo Matias.
Apesar disso, preferiu atribuir aos serviços uma iniciativa que também sabe não lhes pertencer. Trata-se, por conseguinte, de um acto de desonestidade intelectual que a direcção do SETE JORNAL repudia veementemente e não pode deixar de assinalar. E trata-se, ainda, de uma injustiça para com os próprios serviços municipais, chamados agora a suportar publicamente a responsabilidade de uma miserável decisão que não tomaram e que apenas executaram.
Contudo, a partir dessa primeira falsidade, torna-se mais fácil sustentar a segunda: a de que o SETE JORNAL quis “criar um facto político”. Nada é mais falso!…
A direcção do SETE JORNAL outra coisa não fez do que relatar uma sucessão de acontecimentos que considerou – e continua a considerar – de manifesto interesse público. Fê-lo com base em documentos escritos, produzidos pelo próprio Município, e depois de ter concedido ao presidente da Câmara, à vereadora da Cultura, ao chefe do Gabinete da Presidência e à Bibliotecária Municipal a oportunidade de reiterarem, por escrito, uma autorização anteriormente concedida. A resposta foi o silêncio.
Esse silêncio não foi criado pelo SETE JORNAL. E também não fomos nós quem decidiu levantar um obstáculo administrativo inexistente durante quase dois meses, precisamente quando a apresentação do livro já estava anunciada. Tal como não fomos nós quem colocou em causa uma autorização formalmente concedida. “Que é verdade que tinha”, como o presidente da Câmara não deixou de reconhecer nestas infelizes declarações. Mas, ainda assim, acusou o SETE JORNAL de criar um facto político. A verdade é exactamente a inversa.
A direcção do SETE JORNAL limitou-se a denunciar, com recurso a elementos inequívocos, um facto político, esse sim, criado pelo próprio Município. E se o lamentável episódio ultrapassou as fronteiras de Barcelos e mereceu a atenção da comunicação social nacional, tal deveu-se exclusivamente à perplexidade gerada pela actuação do executivo de Mário Constantino e não a qualquer estratégia do SETE JORNAL.
Disse ainda o presidente da Câmara que a sua “primeira sensação” foi a de pedir à vereadora da Cultura para que Miguel Carvalho apresentasse o livro na Feira do Livro de Barcelos. Independentemente dessa intenção alguma vez se ter concretizado, a afirmação produz um efeito que Mário Constantino talvez não tenha antecipado.
É que se nunca existiu qualquer objecção ao livro, ao seu autor ou ao debate proposto e a quem nele participou – como fez questão de assegurar perante a Assembleia Municipal –, então torna-se ainda mais incompreensível a decisão de inviabilizar a sua apresentação já depois desta ter sido formalmente autorizada. É essa contradição que o presidente continua sem explicar.
Em vez de o fazer, preferiu insinuar que o SETE JORNAL explorou esse acontecimento para alcançar notoriedade. Ora, os leitores conhecem os factos. Os documentos existem, assim como a autorização. A exigência posterior de repetir um pedido já deferido também existiu. E assim aconteceu porque um vereador não teve pejo em instrumentalizar os serviços municipais e reabrir um procedimento encerrado para tentar fazer valer as suas mesquinhas censuras.
Nada do que o presidente da Câmara disse ou possa dizer altera essa realidade, já que os factos permanecem exactamente os mesmos. O que mudou foi apenas a forma como o presidente da Câmara procurou apresentá-los. Mas nenhuma versão, por mais conveniente que seja, apaga os documentos. E nenhuma tentativa de reescrever os acontecimentos conseguirá transformar um acto de desonestidade intelectual numa explicação credível.