A concentração de gado bovino está marcada para as 9h30, seguindo-se a bênção dos animais e a atribuição de prémios aos melhores produtores. A iniciativa continua a reunir vários criadores da região e habitantes da freguesia em torno de uma actividade que durante décadas ocupou um lugar central na economia rural local.
A origem desta tradição encontra-se documentada no período compreendido entre 1946 e 1955, quando a antiga peregrinação ao monte de São Lourenço se foi transformando gradualmente em romaria. Foi nessa época que chegou à capela a imagem de São Silvestre, destinada a satisfazer a devoção de muitos lavradores que faziam promessas quando algum dos seus animais adoecia. A partir daí nasceu a feira anual do gado que, apesar das profundas transformações ocorridas no mundo rural, continua a realizar-se todos os anos.
A explicação ajuda também a compreender uma particularidade da festa de Alheira. Embora São Silvestre não seja tradicionalmente reconhecido pela Igreja Católica como padroeiro dos animais, a sua devoção ficou localmente associada à protecção do gado e às preocupações dos agricultores, acabando por dar origem a uma tradição que atravessou gerações.
O local onde a feira se realiza possui, aliás, uma longa ligação à história da freguesia. A ermida de São Lourenço já surge referenciada nas Inquirições de D. Afonso III, em 1258, sendo o monte onde se encontra implantada há séculos um local de romaria e devoção. Ao longo do tempo, a capela foi sendo ampliada e beneficiada, consolidando-se como um dos principais espaços religiosos da comunidade.
Se durante grande parte do século XX as feiras de gado constituíam um elemento habitual da vida económica das comunidades rurais, funcionando como locais de compra, venda e troca de animais, a realidade actual é bastante diferente. A modernização da agricultura, a diminuição das explorações familiares e a alteração dos circuitos de comercialização contribuíram para o desaparecimento de muitas destas iniciativas, tornando cada vez mais raros este tipo de certames.
De resto, a organização de uma concentração pecuária deste género pouco tem hoje em comum com aquela que existia quando a feira de Alheira deu os primeiros passos. O cumprimento de normas sanitárias, a identificação dos animais, os controlos relacionados com a saúde animal e as exigências de bem-estar constituem actualmente uma componente indispensável da logística destes eventos, tornando a sua organização mais complexa e onerosa.
É neste contexto que a feira do gado de Alheira continua a destacar-se como um testemunho vivo da ligação entre a comunidade, a actividade agrícola e as festividades religiosas da freguesia. Mais do que uma simples mostra pecuária, representa a continuidade de uma tradição cuja origem permanece ligada à fé dos lavradores e à importância que o gado assumiu durante gerações na vida económica e social do território.